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liturgia
deste 10º Domingo do Tempo Comum nos coloca diante de uma das revelações
mais consoladoras e, ao mesmo tempo, mais desafiadoras do Evangelho. Jesus
declara abertamente a Sua missão: "Aqueles que têm saúde não precisam
de médico, mas sim os doentes" (Mt 9,12). Ao sentar-se à mesa
com cobradores de impostos e pecadores, Jesus assume o papel de Médico das
nossas almas. Ele não se escandaliza com a nossa fraqueza; Ele vem para nos
curar. No entanto, para receber essa cura, precisamos ter a coragem de assumir
a nossa condição de necessitados.
Na Primeira Leitura (Os
6,3-6), o profeta Oseias denuncia uma atitude muito comum no meio
religioso: o amor instável e superficial. Ele compara a devoção do povo a uma "nuvem
pela manhã" ou ao "orvalho que cedo se desfaz". O
povo oferecia sacrifícios de animais no templo, mas a vida prática estava
distante da justiça e da compaixão.
É aqui que Deus
pronuncia a frase que Jesus usará para responder aos fariseus: "Quero
amor (misericórdia), e não sacrifícios" (Os 6,6). O Salmo 49 reforça
essa verdade: Deus não precisa de animais ou holocaustos, pois o universo
inteiro já Lhe pertence. O verdadeiro sacrifício que agrada ao Senhor é o
louvor sincero e uma vida que procede retamente. O culto na igreja só tem valor
se ele se transformar em amor ao próximo fora dela.
No Evangelho (Mt
9,9-13), vemos essa dinâmica acontecer na prática. Mateus era um publicano,
um cobrador de impostos. Aos olhos da sociedade e dos religiosos da época, ele
era um traidor da pátria, um ladrão público e um pecador impatável. Ele estava
estático, preso à sua mesa de interesses egoístas.
Jesus passa, olha para
ele e diz: "Segue-me". Não há sermão moralista, não há
exigências prévias. O olhar de Jesus liberta Mateus de seu passado. Ele se
levanta imediatamente, deixa tudo para trás e se torna discípulo.
A transformação é tão
profunda que Mateus abre as portas de sua casa para um banquete. Ele quer que
seus antigos amigos — outros pecadores e cobradores de impostos — também
experimentem a alegria de serem olhados com amor por Jesus. Os fariseus,
apegados às regras de pureza legal, questionam: "Por que vosso mestre
come com os cobradores de impostos e pecadores?". Eles preferiam o
sacrifício do isolamento e do julgamento à misericórdia do acolhimento.
Como responder a esse
chamado que parece impossível para nossas próprias forças? A resposta está na Segunda
Leitura (Rm 4,18-25). São Paulo nos apresenta o exemplo de Abraão, o pai
da fé. Ele "esperou contra toda esperança". Mesmo velho e
diante de promessas humanamente impossíveis, Abraão não duvidou, mas
fortaleceu-se na fé e deu glória a Deus.
Seguir a Jesus,
abandonar os nossos próprios "postos de cobrança" (nossos
egoísmos, vícios e preconceitos) exige uma fé semelhante. Exige crer que o
amor de Deus é poderoso o suficiente para fazer brotar vida nova onde só havia
pecado e paralisia.
Neste 10º Domingo do
Tempo Comum, a Palavra de Deus bate à porta das nossas comunidades e do nosso
coração com três questionamentos práticos:
- Identificamos
as nossas feridas? Temos a humildade de nos reconhecer doentes e
necessitados do perdão de Deus, ou nos escondemos atrás de uma falsa capa
de "bons católicos" que julgam os outros?
- Como
está a nossa coerência? O nosso louvor na Santa Missa tem se
transformado em gestos concretos de misericórdia na nossa família, no
nosso trabalho e com os mais necessitados?
- Como
olhamos para quem errou? Nós nos parecemos com os fariseus, que
excluem e apontam o dedo, ou nos parecemos com Jesus, que estende a mão e
chama para sentar-se à mesa?
Que ao celebrarmos esta
Eucaristia — o memorial do sacrifício supremo de Cristo —, o nosso coração de
pedra seja transformado em um coração de carne. Que possamos nos levantar com
alegria ao ouvir o chamado do Senhor e ser, no mundo de hoje, o rosto vivo de
Sua infinita misericórdia.
Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Cristo!
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