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liturgia deste 22º Domingo do Tempo
Comum nos coloca diante de uma das crises mais profundas e humanas de toda a
Sagrada Escritura. Na Primeira Leitura, escutamos o desabafo comovente do
profeta Jeremias: "Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir" (Jr
20,7). Jeremias não escolheu o caminho mais fácil. Anunciar a verdade de
Deus em um mundo corrompido custou-lhe a solidão, a zombaria e a perseguição.
Quantas vezes nós, cansados do peso de sermos fiéis ao
Evangelho em nossos ambientes de trabalho, em nossas famílias ou na sociedade,
também sentimos o desejo de Jeremias: "Não quero mais lembrar-me disso
nem falar mais em nome dele" (Jr 20,9). No entanto, a experiência com
o Deus vivo não é algo superficial. Ela se torna, como no profeta, um fogo
ardente cravado nos ossos, impossível de ser contido. É esse mesmo anseio
profundo que cantamos no Salmo 62: "A minha alma tem sede de vós, como
terra sedenta e sem água". Só Deus preenche o vazio que o mundo tenta
saciar com ilusões.
No Evangelho segundo Mateus, encontramos a continuação
direta do texto do domingo anterior. Pedro, que acabara de ser proclamado a
"rocha" sobre a qual a Igreja seria edificada, agora se transforma em
uma "pedra de tropeço". Ao ouvir Jesus anunciar, pela primeira vez,
que deveria ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e ressuscitar, Pedro tenta
afastar o Mestre desse destino.
A reação de Jesus é severa: "Vai para longe de
mim, Satanás!" (Mt 16,23). O termo "Satanás" significa o
adversário, aquele que divide ou desvia do caminho. O erro de Pedro não foi a
falta de afeto por Jesus, mas o fato de não pensar segundo Deus, e sim segundo
os homens. A lógica humana busca o sucesso sem dor, a coroa sem a cruz, o
privilégio sem o sacrifício. Mas a lógica de Deus passa, necessariamente, pela
entrega de amor no Calvário.
Jesus aproveita o momento para deixar claro aos
discípulos e a cada um de nós o preço e as condições do verdadeiro seguimento:
- Renunciar a si
mesmo: Não significa anular a
própria personalidade, mas descentrar-se. É deixar de ser o próprio
"deus" para colocar Cristo no centro da vida.
- Tomar a sua cruz: A cruz cristã não é o sofrimento pelo
sofrimento, nem o conformismo com a injustiça. A cruz é a consequência de
uma vida gasta por amor. É assumir a responsabilidade de viver com
coerência ética, justiça e caridade em um mundo que prefere o egoísmo.
- Seguir Jesus: Significa caminhar atrás Dele, imitando Seus
passos, Seus critérios e Suas escolhas.
O paradoxo do Reino de Deus resume-se na frase: "Quem
quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de
mim, vai encontrá-la" (Mt 16,25). Quem retém a vida para si, trancado
em seu próprio egoísmo, acaba por desperdiçá-la. Quem a gasta no serviço e no
amor ao próximo, a eterniza.
Meus irmãos, como transformar essa exigência em vida
prática? São Paulo nos dá a resposta na Segunda Leitura (Rm 12,1-2). Ele
roga para que ofereçamos nossos próprios corpos como um "sacrifício
vivo, santo e agradável a Deus". O verdadeiro culto a Deus não termina
no espaço litúrgico do templo; ele continua no altar do nosso cotidiano, nas
nossas escolhas éticas.
São Paulo faz um apelo urgente que ressoa com força nos tempos atuais: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente" (Rm 12,2). Não se conformar significa não aceitar passivamente a cultura da indiferença, do descarte, do consumo desenfreado e da mentira. Renovar a mente é adotar o olhar de Cristo para discernir o que é bom, agradável e perfeito aos olhos de Deus.
Participar da Eucaristia neste 22º Domingo do Tempo Comum é renovar o nosso sim à sedução divina que um dia nos alcançou. Que não sejamos discípulos de aparências, que buscam Jesus apenas nas horas de glória, mas que tenhamos a coragem de abraçar a cruz de cada dia.
Ao nos aproximarmos da mesa do Senhor, peçamos a graça de perder o medo de perder para que, configurados ao mistério pascal de Cristo, possamos encontrar a verdadeira e plena vida. Amém!
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