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Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de
Cristo (Corpus Christi) nos convida a contemplar o mistério do Deus que se faz
alimento para sustentar a nossa caminhada histórica. As leituras desta liturgia
entrelaçam memória, comunhão e profecia, revelando que a Eucaristia não
é um rito estático, mas a força dinâmica de um povo a caminho.
No deserto, o povo de
Israel experimentou a fome, a sede e a vulnerabilidade. Moisés exorta o povo: "Lembra-te
de todo o caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu". O maná, um
alimento desconhecido, foi dado para ensinar uma lição central: "Não só
de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor".
A tentação do ser
humano, ao alcançar a terra prometida e a fartura, é o esquecimento de Deus e a
autossuficiência. O deserto foi o lugar pedagógico da dependência do Criador.
Celebrar Corpus Christi hoje é fazer memória da nossa própria fragilidade e reconhecer
que o verdadeiro sustento de nossas vidas vem do Alto. O maná era perecível;
prenunciava algo maior.
São Paulo eleva o
sentido do alimento ritual para a dimensão eclesial. O cálice da bênção e o pão
que partimos são comunhão com o Sangue e o Corpo de Cristo. A
consequência teológica e social disso é profunda: "Pois há um só pão,
nós, embora muitos, somos um só corpo".
A Eucaristia é o
sacramento da unidade. Em um mundo marcado pela polarização, pelo
individualismo e pela exclusão, o Corpo de Cristo nos recorda que não podemos
comungar o Senhor no altar se desprezamos o irmão na vida. A partilha do pão
eucarístico exige de nós o compromisso de derrubar os muros da divisão e
construir pontes de fraternidade. Se o pão é um só, a nossa responsabilidade
com a vida da comunidade também deve ser unificada.
No Evangelho de João,
Jesus radicaliza o discurso do pão: "Eu sou o pão vivo descido do céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente". Ele não promete um sustento
temporário como o maná, mas a sua própria carne para a vida do mundo. Os seus
ouvintes murmuram porque a linguagem do "comer a carne" e "beber
o sangue" rompe as barreiras do purismo ritual antigo.
Jesus estabelece uma
relação de mútua pertença: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em mim e eu nele". Essa permanência gera vida em
plenitude. A Eucaristia nos transfigura. Ao comungarmos o Corpo de Cristo,
tornamo-nos aquilo que recebemos: somos chamados a ser o próprio Cristo para os
outros, curando as feridas, acolhendo os marginalizados e saciando a fome de
dignidade e de paz.
O Salmo 147 nos convida
a louvar o Senhor que "reforçou os ferrolhos de nossas portas"
e "encheu-nos da flor da farinha". Essa abundância divina deve
transbordar em justiça social.
Ao sairmos às ruas
nesta solenidade com o ostensório, não realizamos apenas um ato de piedade
interna, mas um manifesto público: o Deus em quem cremos habita a cidade,
caminha com os sofredores e exige que o pão esteja na mesa de todos os seus
filhos.
Que esta celebração
transforme o nosso olhar para o Altar e para a História, fazendo de nossas
comunidades espaços de verdadeira comunhão, onde a Palavra e o Pão transformem
o deserto do mundo em terra de esperança.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
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