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oje, o Brasil se ajoelha diante de sua
Padroeira. Celebrar a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos
convida a contemplar o mistério do cuidado de Deus que se manifesta na
fragilidade de uma imagem enegrecida pelas águas e pelo tempo, mas
resplandecente de graça. No coração da 28ª Semana do Tempo Comum, as leituras
deste Ano A nos conduzem por um caminho de intercessão, realeza e discipulado
fiel.
Na primeira leitura,
contemplamos a figura da Rainha Ester. Ela se veste com suas vestes reais e se
coloca diante do rei, não por vaidade, mas para salvar o seu povo da
destruição. Ester arrisca a própria vida e suplica: "Se ganhei as tuas
boas-graças, ó rei, concede-me a vida — eis o meu pedido! — e a vida do meu
povo" (Est 7,3).
Esta figura aponta
diretamente para Maria. O Salmo 44 canta: "Escuta, filha, olha, ouve a
minha palavra... À vossa direita se encontra a rainha, ornada de ouro de
Ofir". Maria é a verdadeira Rainha Mãe. Ela não usa sua realeza para
se distanciar de nós, mas para se aproximar. Entrando na presença do Rei dos
Reis, seu Filho Jesus, ela leva no coração as dores, as angústias e os clamores
do povo brasileiro, especialmente dos mais pobres, representados pelos três
pescadores que a encontraram no Rio Paraíba do Sul.
O livro do Apocalipse
nos transporta para uma dimensão cósmica. Vemos "uma mulher vestida de
sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze
estrelas" (Ap 12,1). Ela dá à luz o Messias, aquele que
governará as nações.
No entanto, essa visão
gloriosa não está isenta de dor. Há um dragão que persegue a mulher e sua
descendência. A torrente de água que o dragão lança para afogá-la representa as
forças do mal, do pecado, da opressão e da cultura da morte que tentam sufocar
a vida do povo de Deus. Mas a terra vem em socorro da mulher. Essa leitura nos
lembra que a devoção a Nossa Senhora Aparecida não é um refúgio alienante.
Maria está conosco no combate diário contra as injustiças, o desespero e tudo o
que ameaça a dignidade humana. Ela nos protege sob o seu manto azul.
O ápice da nossa
reflexão litúrgica deságua no Evangelho de João, nas Bodas de Caná. O cenário é
de festa, mas surge uma crise: "Eles não têm mais vinho" (Jo
2,3). O vinho, na Sagrada Escritura, é símbolo da alegria, do amor e da
festa da salvação. Faltar o vinho significa que a alegria daquela família
estava prestes a acabar.
Maria é a primeira a
perceber. Ela tem os olhos atentos da mãe que repara na mesa vazia, no
desespero silencioso dos esposos. Ela não faz o milagre; ela recorre a Quem
pode fazê-lo. Ela vai a Jesus. E, em seguida, dirige-se aos serventes — e a
cada um de nós hoje — com aquela que é a sua maior lição e o seu testamento
espiritual: "Fazei tudo o que ele vos disser" (Jo 2,5).
Jesus ordena que se
encham as talhas de água. Uma obediência que parecia sem sentido, mas que gera
o milagre. O vinho novo e melhor brota da obediência à Palavra de Cristo.
Irmãos e irmãs, a
história de Aparecida repete o Evangelho de Caná. Em 1717, as redes dos
pescadores estavam vazias — não havia peixe, faltava o sustento, faltava o
"vinho" da esperança. Ao recolherem o corpo e depois a cabeça da
imagem da Virgem Imaculada, as redes se encheram tanto que quase afundaram os
barcos.
Hoje, Nossa Senhora
Aparecida olha para o Brasil e para as nossas famílias e diz a Jesus: "Eles
não têm mais vinho". Falta o vinho da paz em muitos lares; falta o
vinho da saúde, do emprego digno, da união familiar; falta o vinho da fé em
muitos corações desiludidos.
Maria nos convida hoje
a apresentar a Jesus as nossas talhas vazias e a escutar a Sua voz. O que Jesus
nos pede hoje? Pede-nos partilha, reconciliação, justiça e amor ao próximo.
Quando fazemos o que Ele nos diz, a água do nosso cansaço e das nossas limitações
é transformada no vinho generoso da graça e da alegria profunda.
