sábado, 17 de outubro de 2026

REFLEXÃO LITÚRGICA PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 18/10/2026

 

A

 Palavra de Deus neste domingo nos coloca diante de uma das armadilhas mais clássicas armadas contra Jesus e nos convida a decifrar uma verdade profunda sobre a nossa própria identidade. O cenário do Evangelho de Mateus (Mt 22,15-21) une dois grupos tradicionalmente rivais: os fariseus (defensores da pureza religiosa e contrários à ocupação romana) e os herodianos (colaboradores do poder de Roma). Eles se aliam com um único objetivo: apanhar Jesus em alguma palavra.

A pergunta capciosa é: "É lícito ou não pagar imposto a César?" Se Jesus respondesse que "sim", seria visto pelo povo como um traidor da pátria e um idólatra. Se respondesse que "não", seria denunciado às autoridades romanas como um subversivo, um rebelde político.

Jesus, percebendo a malícia deles, não foge da questão, mas eleva o debate. Ele pede para ver a moeda do tributo, o denário, e faz uma pergunta simples: "De quem é esta imagem e inscrição?" Eles respondem: "De César". Jesus, então, pronuncia a célebre frase: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus".

Ao dizer "dai a César o que é de César", Jesus reconhece que vivemos inseridos em uma sociedade. O cristão não vive isolado em uma bolha de alienação espiritual. Nós temos deveres civis, obrigações sociais, impostos a pagar e devemos colaborar ativamente para a construção do bem comum e da justiça social. Contudo, a resposta de Jesus vai muito além de uma mera divisão de obrigações ou de uma separação entre Igreja e Estado. O foco principal de Jesus está na segunda parte da frase.

Se a moeda de prata trazia gravada a efígie de César e, por isso, pertencia ao tesouro do imperador, onde está gravada a imagem de Deus?

A resposta nos remete diretamente ao livro do Gênesis: o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Portanto, o dinheiro, os bens materiais e as estruturas políticas podem pertencer a César, mas o ser humano pertence exclusivamente a Deus. A nossa dignidade, a nossa alma, a nossa consciência e a nossa liberdade não pertencem a nenhum governante, a nenhum partido, a nenhuma ideologia e a nenhum sistema econômico.

A primeira leitura de hoje (Is 45,1.4-6) ilustra perfeitamente essa soberania divina. Deus usa Ciro, o rei pagão da Pérsia, como um instrumento em Seus planos para libertar o povo exilado, mesmo sem Ciro O conhecer. Isso nos mostra que Deus é o único Senhor da história. Os grandes impérios passam, os líderes mundiais sobem e caem, mas o Senhor permanece para sempre. Como cantamos no Salmo 95: "Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!"

Na segunda leitura (1Ts 1,1-5b), São Paulo elogia a comunidade dos tessalonicenses exatamente por compreenderem a quem pertenciam. Ele destaca a "atividade da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança". Ser de Deus significa traduzir essa pertença em ações concretas de amor no dia a dia da sociedade.

Não podemos usar a desculpa de "dar a Deus o que é de Deus" para negligenciarmos nossa responsabilidade com o mundo, e nem "dar a César o que é de César" a ponto de transformarmos o dinheiro, o trabalho, a política ou o sucesso material no absoluto de nossas vidas. O perigo da idolatria surge quando entregamos a "César" (as realidades mundanas) o culto, o tempo, o coração e a obediência cega que devemos somente ao Criador.

Neste domingo, Jesus nos faz olhar para o espelho da nossa alma. Se alguém olhasse para a sua rotina, para as suas escolhas, para as suas prioridades e para os seus gastos, qual imagem veria gravada ali? A imagem do consumo, do egoísmo e das ambições deste mundo, ou a imagem d’Aquele que nos amou primeiro?

Peçamos a graça de sermos cidadãos exemplares na terra, mas sem nunca esquecer que a nossa pátria definitiva é o Céu. Que saibamos devolver a Deus o que é d'Ele: o nosso coração, a nossa vida e a nossa adoração fiel.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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