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Sábado
Santo é o dia do grande silêncio. A Igreja se recolhe, as luzes se apagam,
o altar permanece nu. Cristo repousa no sepulcro, e o mundo parece suspenso
entre a morte e a vida. É o tempo da espera, o intervalo entre o “está
consumado” da cruz e o “Ele ressuscitou” da manhã pascal. Nesse
silêncio, Deus continua a agir, como no princípio da criação.
A primeira leitura, do
Gênesis, recorda o início de tudo: “No princípio, Deus criou o céu e a
terra.” O Espírito pairava sobre as águas, e da escuridão brotou a luz.
Hoje, esse mesmo Espírito paira sobre o túmulo de Cristo, preparando uma nova
criação. O Sábado Santo é o eco do primeiro sábado, quando Deus descansou de
suas obras. Mas agora, o descanso de Deus é o repouso do Filho que, tendo
completado a redenção, aguarda o amanhecer da nova vida.
O salmo 103 canta a
beleza da criação e a ação contínua do Espírito que renova a face da terra.
Essa renovação atinge seu ápice na ressurreição de Cristo. O Espírito que deu
vida ao mundo é o mesmo que ressuscitará o Filho e, com Ele, todos os que
creem. O silêncio do Sábado Santo, portanto, não é vazio, mas prenhe de
esperança. É o silêncio da semente que germina na terra, invisível, mas viva.
Na carta aos Romanos,
São Paulo nos recorda que, pelo batismo, fomos sepultados com Cristo na morte,
para que, assim como Ele ressuscitou, também vivamos uma vida nova.
O Sábado Santo é o espelho do batismo: mergulhar nas águas é descer com
Cristo ao túmulo; emergir delas é participar de sua ressurreição. A Vigília
Pascal, que coroa este dia, é o momento em que a Igreja renova sua fé batismal,
proclamando que a morte foi vencida.
O Evangelho de Mateus
nos conduz à aurora do primeiro dia da semana. As mulheres vão ao túmulo,
movidas pelo amor e pela fidelidade. Encontram a pedra removida e o anjo que
anuncia: “Não tenhais medo! Ele ressuscitou, como havia dito.” O medo se
transforma em alegria, a escuridão em luz, o silêncio em anúncio. O encontro
com o Ressuscitado transforma tudo: “Alegrai-vos!”, diz Jesus. A
vida venceu.
O Sábado Santo convida
a permanecer junto ao túmulo, não com desespero, mas com fé. É o tempo de
aprender a confiar no agir silencioso de Deus, que trabalha mesmo quando tudo
parece perdido. É o dia de contemplar o mistério da cruz e da ressurreição como
um único movimento de amor: o amor que se entrega até o fim e que, por
isso mesmo, é mais forte que a morte.
Que este silêncio
sagrado prepare o coração para a alegria da Páscoa. Que o Espírito, que pairava
sobre as águas e repousou sobre o túmulo, renove também a vida interior,
fazendo brotar a esperança onde parecia haver apenas escuridão. Porque, no
coração do silêncio, Deus já está fazendo nova toda a criação.
Feliz e Santa Páscoa!

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