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Palavra de Deus neste 18º Domingo do Tempo
Comum nos coloca diante de uma das realidades mais profundas da nossa
existência: a nossa fome e a resposta de Deus a ela. Todos nós trazemos no
coração algum tipo de vazio, uma busca por sentido, paz ou segurança. E o
Evangelho de hoje nos mostra que a verdadeira fome da humanidade só é saciada
pela compaixão e pela gratuidade de Deus, que transborda em amor e nos convida
a partilhar.
Olhemos para a cena que Mateus nos descreve. Jesus
procura um lugar deserto e afastado. Ele acabara de receber a notícia do
martírio de João Batista; Seu coração humano certamente sentia o peso da dor e
do luto. Ele queria silêncio. Mas a multidão, faminta de Deus, descobre Seu
paradeiro e O segue a pé.
Qualquer um de nós, no lugar de Jesus, talvez se
sentisse invadido ou irritado com aquela interrupção. Mas o Evangelho nos diz
que, ao desembarcar e ver aquela multidão, Jesus sentiu uma profunda compaixão.
A compaixão de Jesus não é um sentimento superficial de pena; é uma dor nas
entranhas que se transforma em ação. Ele acolhe, cura os doentes e permanece
com eles até o cair da tarde.
É justamente no final do dia que surge o grande
impasse. Os discípulos, com uma postura muito prática, realista e, por que não
dizer, um pouco individualista, aproximam-se de Jesus e dizem: "O lugar
é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões para que possam ir
aos povoados comprar alimento".
Irmãos, essa é a lógica do mundo em que vivemos: a
lógica do mercado, da exclusão, do "cada um por si". Se você
tem dinheiro, você compra e come; se você não tem, o problema é seu. A solução
dos discípulos para resolver a crise da fome é afastar o problema de perto
deles. Despedir o povo.
Mas Jesus rompe radicalmente com essa lógica. Ele olha
para os discípulos e lança um desafio que atravessa os séculos e ecoa hoje
nesta igreja: "Não é preciso que eles vão embora. Dai-lhes vós mesmos
de comer".
Imagine o susto daqueles homens! Eles olham para o
próprio bolso, olham para a multidão de mais de cinco mil pessoas e respondem,
quase desesperados: "Só temos aqui cinco pães e dois peixes".
Os discípulos focam rigidamente na escassez, naquilo que falta. Jesus, no
entanto, foca no que pode ser oferecido, por menor que seja. Ele diz: "Trazei-os
aqui".
Aqui acontece o grande mistério. Jesus toma os pães e
os peixes, eleva os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte os pães e os
entrega aos discípulos para que os distribuam. Reparem que o texto não diz que
os pães caíram do céu ou que Jesus fez uma mágica diante de todos. O milagre
acontece na dinâmica do desapego e da partilha. Quando os pães começam a passar
de mão em mão, o pouco se torna muito. O milagre do Evangelho não é o acúmulo,
é a comunhão. Todos comeram, ficaram saciados e ainda sobraram doze cestos
cheios.
Essa atitude de Jesus — tomar, abençoar, partir e dar
— é exatamente o que fazemos em cada Missa. O Evangelho de hoje é uma catequese
sobre a Eucaristia. No altar, trazemos o nosso pouco: um pedaço de pão e um
pouco de vinho, frutos do nosso trabalho. Deus aceita a nossa pequenez,
transforma-a com o Seu Espírito e a devolve a nós como Alimento de Vida Eterna.
A primeira leitura do profeta Isaías já antecipava
essa gratuidade: "Todos vós que tendes sede, vinde às águas... vinde,
comprai pão e comei, sem dinheiro!". Deus nos questiona hoje: por que
gastamos nosso dinheiro, nosso tempo e a nossa saúde com aquilo que não sacia
de verdade? Por que buscamos a felicidade no consumo desenfreado ou no egoísmo,
se o que realmente nos preenche é o amor gratuito de Deus?
Esse amor, como nos garantiu São Paulo na segunda
leitura, é absoluto. Nada — nem a fome, nem a angústia, nem as crises do mundo
— pode nos separar do amor de Cristo. É nessa certeza que encontramos forças
para obedecer ao mandato de Jesus: "Dai-lhes vós mesmos de comer".
Meus irmãos, esta homilia não pode terminar sem um
exame de consciência. Quem são os famintos que estão ao nosso redor hoje? Há
fome de pão material, sim, e não podemos fechar os olhos à miséria e à
injustiça social. Mas há também uma imensa fome de escuta, de perdão, de afeto
e de Deus.
Muitas vezes nos desculpamos dizendo: "Senhor,
eu tenho tão pouco... Minha fé é pequena, meus recursos são limitados, meu
tempo é escasso". Jesus nos repete hoje: "Traz o teu pouco
para Mim". Coloque seus cinco pães e dois peixes nas mãos do Senhor.
Deixe que Ele abençoe a sua vida, o seu tempo e os seus dons. Quando paramos de
reter e começamos a partilhar, Deus opera o milagre da multiplicação em nossas
famílias e em nossa comunidade.
Que a Eucaristia que celebramos hoje nos transforme
também a nós em pão partido para a vida do mundo. Que saíamos daqui não com o
desejo de "despedir a multidão", mas com o coração inflamado pela
mesma compaixão de Jesus.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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