sábado, 29 de agosto de 2026

REFLEXÃO LITÚRGICA PARA O 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 30/08/2026

 

A

 liturgia deste 22º Domingo do Tempo Comum nos coloca diante de uma das crises mais profundas e humanas de toda a Sagrada Escritura. Na Primeira Leitura, escutamos o desabafo comovente do profeta Jeremias: "Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir" (Jr 20,7). Jeremias não escolheu o caminho mais fácil. Anunciar a verdade de Deus em um mundo corrompido custou-lhe a solidão, a zombaria e a perseguição.

    Quantas vezes nós, cansados do peso de sermos fiéis ao Evangelho em nossos ambientes de trabalho, em nossas famílias ou na sociedade, também sentimos o desejo de Jeremias: "Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele" (Jr 20,9). No entanto, a experiência com o Deus vivo não é algo superficial. Ela se torna, como no profeta, um fogo ardente cravado nos ossos, impossível de ser contido. É esse mesmo anseio profundo que cantamos no Salmo 62: "A minha alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água". Só Deus preenche o vazio que o mundo tenta saciar com ilusões.

  No Evangelho segundo Mateus, encontramos a continuação direta do texto do domingo anterior. Pedro, que acabara de ser proclamado a "rocha" sobre a qual a Igreja seria edificada, agora se transforma em uma "pedra de tropeço". Ao ouvir Jesus anunciar, pela primeira vez, que deveria ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e ressuscitar, Pedro tenta afastar o Mestre desse destino.

    A reação de Jesus é severa: "Vai para longe de mim, Satanás!" (Mt 16,23). O termo "Satanás" significa o adversário, aquele que divide ou desvia do caminho. O erro de Pedro não foi a falta de afeto por Jesus, mas o fato de não pensar segundo Deus, e sim segundo os homens. A lógica humana busca o sucesso sem dor, a coroa sem a cruz, o privilégio sem o sacrifício. Mas a lógica de Deus passa, necessariamente, pela entrega de amor no Calvário.

    Jesus aproveita o momento para deixar claro aos discípulos e a cada um de nós o preço e as condições do verdadeiro seguimento:

  • Renunciar a si mesmo: Não significa anular a própria personalidade, mas descentrar-se. É deixar de ser o próprio "deus" para colocar Cristo no centro da vida.
  • Tomar a sua cruz: A cruz cristã não é o sofrimento pelo sofrimento, nem o conformismo com a injustiça. A cruz é a consequência de uma vida gasta por amor. É assumir a responsabilidade de viver com coerência ética, justiça e caridade em um mundo que prefere o egoísmo.
  • Seguir Jesus: Significa caminhar atrás Dele, imitando Seus passos, Seus critérios e Suas escolhas.

    O paradoxo do Reino de Deus resume-se na frase: "Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la" (Mt 16,25). Quem retém a vida para si, trancado em seu próprio egoísmo, acaba por desperdiçá-la. Quem a gasta no serviço e no amor ao próximo, a eterniza.

Meus irmãos, como transformar essa exigência em vida prática? São Paulo nos dá a resposta na Segunda Leitura (Rm 12,1-2). Ele roga para que ofereçamos nossos próprios corpos como um "sacrifício vivo, santo e agradável a Deus". O verdadeiro culto a Deus não termina no espaço litúrgico do templo; ele continua no altar do nosso cotidiano, nas nossas escolhas éticas.

    São Paulo faz um apelo urgente que ressoa com força nos tempos atuais: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente" (Rm 12,2). Não se conformar significa não aceitar passivamente a cultura da indiferença, do descarte, do consumo desenfreado e da mentira. Renovar a mente é adotar o olhar de Cristo para discernir o que é bom, agradável e perfeito aos olhos de Deus.    

    Participar da Eucaristia neste 22º Domingo do Tempo Comum é renovar o nosso sim à sedução divina que um dia nos alcançou. Que não sejamos discípulos de aparências, que buscam Jesus apenas nas horas de glória, mas que tenhamos a coragem de abraçar a cruz de cada dia.

    Ao nos aproximarmos da mesa do Senhor, peçamos a graça de perder o medo de perder para que, configurados ao mistério pascal de Cristo, possamos encontrar a verdadeira e plena vida. Amém!

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