|
A |
Palavra de Deus que a Igreja nos convida a
meditar neste 23º Domingo do Tempo Comum nos coloca diante de uma das dimensões
mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, mais belas da nossa fé: a
corresponsabilidade fraterna. Fomos salvos em comunidade e é em comunidade que
somos chamados a viver e a guardar a santidade uns dos outros.
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel recebe uma
missão grave do Senhor. Ele é colocado como "sentinela" para a casa
de Israel. A função da sentinela não é julgar, mas vigiar; não é condenar, mas
alertar sobre o perigo que se aproxima. Deus deixa claro que, se o justo se
desviar e a sentinela se calar, ela partilhará da responsabilidade pela perda
daquele irmão. Essa passagem nos arranca do individualismo espiritual. A
salvação do meu irmão diz respeito a mim. Não podemos nos render à cultura da
indiferença, aquela que nos faz lavar as mãos e dizer: "O problema é dele,
a vida é dele". Para Deus, o pecado do irmão também é um chamado à nossa
ação amorosa.
É por isso que, no Evangelho de Mateus, Jesus nos dá o
método prático de como exercer essa missão de sentinela através da correção
fraterna. Jesus não nos pede para expor o erro do irmão publicamente, nem para
fazer fofocas ou criar tribunais de internet. O caminho de Cristo é o da
delicadeza e do respeito: "Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo a
sós com ele". O objetivo da correção cristã nunca é a humilhação ou o
desabafo do nosso orgulho ferido; o único objetivo é ganhar o irmão, resgatá-lo
para a comunhão.
Muitas vezes, preferimos falar dos outros em
vez de falar com os outros. O silêncio covarde ou a fofoca destroem a
comunidade. Jesus estabelece degraus de paciência: primeiro a sós, depois com
testemunhas e, por fim, com a Igreja. E mesmo quando o texto diz para tratá-lo
"como um pagão ou um cobrador de impostos" caso ele recuse ouvir a
Igreja, precisamos nos lembrar de como Jesus tratava os pagãos e os cobradores
de impostos: com misericórdia infinita, chamando-os continuamente à conversão.
Como realizar essa missão tão difícil sem cair na
hipocrisia de nos acharmos melhores que os outros? São Paulo, na segunda
leitura, nos dá a chave de ouro: "Não devais a ninguém coisa alguma, a não
ser o amor mútuo". O amor é o pleno cumprimento da Lei. A correção só é
legítima e cristã se nascer do amor. Se corrigimos por irritação, por
impaciência ou para provar que estamos certos, pecamos tanto quanto aquele que
errou. Mas se corrigimos porque amamos a alma do irmão e queremos vê-lo no Céu,
estamos cumprindo os mandamentos.
Para que nossos corações não fiquem endurecidos pelo
orgulho, o Salmo de hoje nos adverte: "Não fecheis o vosso coração, ouvi
vosso Deus". Precisamos primeiro ouvir a voz do Senhor, reconhecer que nós
também necessitamos de correção e de misericórdia todos os dias, para só então
podermos nos aproximar do irmão com mansidão.
Por fim, Jesus nos deixa uma promessa consoladora:
"Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali no meio
deles". A comunidade cristã, unida pelo vínculo do perdão e da
reconciliação, torna-se o lugar da presença viva de Cristo. Quando rezamos
juntos, quando nos perdoamos mútua e sinceramente, o Céu se abre e a terra se
cura.
Que esta Eucaristia renove em nós a coragem de amar sem medidas, a humildade para sermos corrigidos e a caridade divina para sermos verdadeiras sentinelas da salvação de nossos irmãos.










.jpg)































